segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Para dias comuns

Pegue duas doses de intolerância
E misture com bom senso perdido
Não se esqueça de adicionar inveja após um riso esquecido
Deixe de molho por uns minutos
E logo após umas pitadas de qualquer esperança
Levar ao fogo alto ou o que tiver de chama
Sal a gosto

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Casa




Na casa
Tem cadeira
Tem janela
Um retrato
vidas em outras vidas
Pedaços de primavera

Tem paredes
Ah, as paredes
Se falassem, ditas cujas
Gritariam aos montes
Das cenas que já testemunhou
Por entre suas tintas e cimento

Sinos a badalar
Coração dilacerado
Enganado ferido cansado
Surge outros toques
Cheiros se espalham

Quem casa
Tem casa
Tem um caso
Para um acaso
Ate que a morte os separe


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Duas vidas



Francisco
Menino que pula e brinca
Se esconde e quebra brinquedos

Fernanda
Pega a boneca e brinca com os pincéis
Mexe as tranças e canta feliz

Mais alto
Pixote
Vira o copo e veste a farda
Jura voltar com cinco estrelas
Orgulho da família

Formada
Esbelta
Levanta a mão e sobe as escadas
Olha o relógio
E corre para não se atrasar

Cansado
Tira a gravata e beija a esposa
O jornal e seu leite
Troca umas palavras e dorme
Casada
Abraças as crianças
Promete que volta pro jantar
E parte para mais um plantão

domingo, 18 de outubro de 2009

Desabafo para o Tédio

O que espero
Dos dias que me acompanham
Do que se espera
Das próprias pessoas
Uma falsa modéstia
Melhor passar adiante

Tudo passa
Ate mesmo essas palavras
Que percorrem essas linhas
Passam
Mas não esperam

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Traquinagens




Se assim fosse
Tomava suco de caju
Subiria no pé de goiaba
Pulava o dia inteiro
Cabularia aula pra pescar
E com o troco do pão
Te daria um beijo e um doce

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Vinte e Três

Lembro eu
Uma vez
Quando tinha vinte e três
Que o tempo ainda era nada
Do infinito dos dias das vidas que contei

Os passos ainda eram largos
E o rosto macio pela lucidez
Deslizava nas primaveras alheias
Cheirava Roma e Dias Aléns
Pousava em tecidos coloridos

Cantava para mim mesmo
As canções pra encantar o momento
E muitas vezes,
Cantava pra ninguém

Sonhava acordado, o infeliz
Por vinte e três noites adentro
Entrando em outros sonhos
Imaginando outro mundo
Aspirava vôos impossíveis
Mesmo com os olhos vendados

Olhava no espelho e ria
Hoje olho e entendo
A fruta da mocidade
Nunca me enganava
E uma certa certeza, as vezes
Em mim pairava

Pensava distante
Anos a mais em mim
Talvez
Anos que nunca tive
Surgiram aos montes
E todos eles nunca assumi, mas acreditei

E vinham os versos, o verbo
Se fazia nos olhos e perna, o caderno, testemunha
Se um certo poeta
Um dia eu o procuro de novo

Lembro eu
Em outros tempos
Hoje não lembro mais
Quantos anos mesmo?
Já não importa
Os outros ficaram pra traz